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V O L U M E I I N Ú M E R O V I I I Janeiro - Março 2004
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A poesia de Márcia Theóphilo
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1- Apresentação
Márcia Theóphilo é uma poetisa brasileira, radicada na Itália, cuja obra tem recebido alguns dos mais importantes prêmios europeus, como, por exemplo, Città di Roma, Fregene, Nuove Scrittrici, Calliope, Sant'Egidio, Carsulae, Histonium e Parco Majella. Ela também faz parte da lista de candidatura ao Nobel.
Antropóloga por formação, Márcia expressa, em sua poesia, uma intensa ligação com a floresta amazônica, inspirando-se em sua gente, sua flora, sua fauna, seus mitos e lendas.
Em fevereiro de 2004, Márcia esteve no Brasil, onde, infelizmente, sua obra é ainda pouco conhecida, a fim de lançar uma antologia bilíngüe: Amazônia canta/ Amazon sings. Na ocasião, tive a oportunidade de conversar com ela e manifestar a minha admiração pela sua obra.
É, de fato, surpreendente que o povo brasileiro ainda não tenha tido a chance de conhecer a poesia dessa ilustre filha de nossa terra, que não só tem divulgado na Europa a nossa cultura, como também tem sido uma defensora incansável dos direitos da população indígena.
A fim de que os leitores possam compartilhar a magia e a beleza da poesia de Márcia, reproduzo alguns poemas:
A noite
No princípio não havia noite não se sabia o que era noite havia somente luz e era tão intensa nos trópicos que se tinha a sensação de passar períodos de azul de vermelho, de verde era tão forte a luz que as pessoas tinham a sensação de flutuar dentro das cores dentro das plantas tudo o que hoje não fala, falava intercomunicava-se entre si as árvores se falavam estimulavam o pensamento com suas flores não se sabia o que era negro existiam somente as cores que emanavam da luz distribuíam energia-pensamento mas não se dormia o homem não conhecia o que era cansaço mas não conhecia também a ternura do repouso o silêncio e a música porque a música nasceu com o silêncio e com a noite a música nasceu com a consciência dos primeiros ritmos e com a noite nasceu o primeiro canto.
Floresta meu dicionário
Louca risada a tua
ressoa afiada
mandioca brava, tua risada
tuas caricias, teu prazer agudo.
Kupahúba vive, anda, e volta
até o sol desaparecer, no dia
entre folhas e ervas,insetos, apodrecidas
matérias vegetais; nos multiplicaremos
o movimento não é deserto, é rio
rouba, saqueia, bebe o que quiseres
é abundante este rio, não para continua
para cantar o som das palavras
Açana, Yana, Nacaira
Caja, Pacaba, Maçaranduba
cada palavra um ser, palavras que escrevo
eu vejo um ar cheio de palavras
a floresta é meu dicionário
palavras, vivas e machucadas
ásperas de caminhos percorridos
Acana, Tapajura, Igarapé
cada palavra um ser, ressoando afiada.
Kupahúba abriu os olhos e aprendeu a ler.
Munguba
Alguém olhando-me
mede meu esplendoroso corpo
mas eu, Munguba frondosa
sou mais ampla
grandes são minhas flores
brancas, amarelas, rosadas
um olhar não basta para me conter
luzes e sombras, alargam-me, diluem-me
no grande rio, em terrenos alagadiços
embriões de luzes
fertilizo cores irredutíveis
semente e fruto corpos em transmutação
ferruginoso - avermelhado
congrego as energias
em minhas vísceras
atraio o apetite, o desejo voraz
de cutias, onças, macacos.
No hálito quente das águas tropicais
em meus ramos, milhares
de penas e plumas, arco-íris de pássaros
cantam seus sonhos de sedução.
Site de Márcia Theóphilo : www.theophilo.amazonia-e-poesia.info
e-mail: marciatheophilo@hotmail.com
A editora
2- Prefácio a Io canto l'Amazzonia ( 1992)
A poesia de Márcia Theóphilo vem-nos de muito longe, do mundo mítico da Amazônia mas através de uma língua européia, o português do Brasil. Os textos de Márcia são tecidos com traços, ritmo e musica da Europa, mas no coração deles se encerra o avesso destes traços: um sonho mítico diferente do sonhar e do 'mitologizar' dos povos boreais. Este sonho, para proclamar a própria diversidade serve-se de uma língua tão antiga quanto a outra , mas de uma outra civilização. Os Traços, os ritmos e a musica e o seu avesso formam assim uma conjunção paradoxal.
Como vive e se exprime este paradoxo através do discurso poético?
Antes de mais nada ele aparece-nos apresentando-se como uma pontual intenção originaria do dizer que se anuncia e se afirma na vontade de contar:
« Yanoá vem contar uma estória para mim,o seu olhar
era invadido dela e da imensidão do seu pensamento.
O pensamento corria e o rio caudaloso a escutava,
arrastando a sua voz.
Repetia o que ela aprendeu dos pássaros,
o melhor de todas as cores, e a idéia alegre de viver
dia por dia, procurando a harmonia com o cosmo.
Yanoá não distinguia entre pensamentos e sabores.»
O conto é mito da origem da qual provem mas que ainda existe: a lição dos pássaros, a idéia alegre de viver, a não distinguindo entre pensamentos e sabores. Este mito está presente, não obstante seja antiqüíssimo como a mesma origem do viver, e é palpável, e faz-se corpo e presença através da palavra do sonho:
«quando começo o meu canto
ninguém sabe o que vem atrás
cavalos, raposas,
pedaços de metais,
pedras,
quebrantes,
montanhas de areis
repousa, vai, tu precisas:
sonhar te cansa demais.»
Ambos, mito e sonho, sonham e contam no canto o principio do dizer, diferentes do dizer europeu que para iniciar a cantar tem que ser inspirado por um poder supremo, não terrestre mas 'musaico'.
Os inícios do dizer amazônico estão ambientados na luz tropical de «Eras de azul, de vermelho, de verde». Os mitos iniciais dos povos mediterrâneos estão, ao contrario, ambientados na atmosfera noturna, à qual chega a luz dos deuses lúciferos.
Depois de se ter apresentado desta maneira o discurso paradoxal da poesia de Márcia chega a dizer. O que é que diz?
Fala da união da voz que diz com o mito. A voz da poesia une-se mediante o sonho diretamente com o mito e narra-o em presença; as historias de Yara e Yací e Boto, das nuvens, das forças da água, da mula sem cabeça.
Através do sonho da presença, a união da voz poética com o mito adquire a consistência de uma verdadeira conjunção erótica. O ditado poético faz literalmente amor com o mito. A língua portuguesa do Brasil esposa-se carnalmente no sonho com o conto vivo da mitologia amazônica, gerando uma celebração arcana que ultrapassa e mitiga para sempre o paradoxo inicial das duas faces da mitologia .
Esta celebração indio - européia acontece em Roma.
Márcia Theóphilo vê na ponte Sisto Tincoã, o grande deus pré-colombiano em forma de pássaro que aparece entre o grande rio e o oceano, confundir-se com um anjo de pedra latina e renascimental.
O que acontece agora, com esta ultima aparição paradoxal?
Acontece que dentro do coração de Roma é possível sonhar o sonho amazônico da conjunção e Márcia apropria-se deste sucessivo extraordinário paradoxo para o transformar numa nova celebração de amor que recorda, mesmo na grande distancia de tradições, a maneira como interpretou Roma um grande poeta que também amou e viveu no Brasil, Giuseppe Ungaretti;
«os antigos mitos… eram só vozes do dicionário que existiam para evocar os fantasmas que de freqüente me apareciam na cidade onde vivia. Não eram figuras de retórica, mas uma espécie de apropriação dos mitos que tanto me se iam tornando familiares.
Armando Gnisci, 1992
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