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V O L U M E I I N Ú M E R O V I I Outubro - Dezembro 2003
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O diálogo intertextual entre Salman Rushdie e Ítalo Calvino em Fúria-romance.
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Profa. Dra. Shirley de Souza Gomes Carreira
Doutora em Literatura Comparada UFRJ
Professora de Literaturas em Língua Inglesa da UNIGRANRIO
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Fúria, o último romance de Salman Rushdie, retoma e amplia temas de seus romances anteriores, como, por exemplo, o processo de transculturação e a natureza do diálogo entre o Oriente e o Ocidente. No entanto, apresenta também características que vêm confirmar a afirmação de Ítalo Calvino na última conferência de Seis propostas para o próximo milênio: a literatura tem-se revelado um exercício constante da busca de uma obra concebida fora do self, uma obra que nos permita sair da perspectiva limitada do eu individual, não só para entrar em outros eus semelhantes ao nosso, mas para fazer falar o que não tem palavra(Calvino:2003,138).
O autobiografismo que, a primeira vista, parece impregnar o romance depõe superficialmente contra essa perspectiva de Calvino, muito embora venha a se revelar, após uma detalhada leitura, como ponto de partida para reflexões profundas da condição de produção da obra literária.
Ao criar, em Fúria, uma história dentro da história, Salman Rushdie dialoga com o texto Six memos for the next millenium, de Ítalo Calvino (2003), apropriando- se das seis propostas que o texto contém de modo parodístico, reelaborando-as e usando-as como "modus operandi" em seu romance.
Esta comunicação propõe o exame desse diálogo intertextual, a fim de demonstrar o modo pelo qual Rushdie põe em prática a sua reelaboração do texto de Calvino, bem como a importância da apropriação do intertexto para a temática desenvolvida.
O romance gira em torno de Malik Solanka, um ex-professor de história das idéias, que, repentinamente, decide abandonar a esposa e o filho e partir para a América do Norte, mais especificamente para Nova York, no intuito de apagar o seu passado.
Aos cinqüenta e cinco anos de idade, Solanka encerra sua carreira acadêmica em Cambridge e passa a se dedicar a um antigo hobby: a confecção de bonecos de madeira. Uma de suas criações, a boneca Little Brain, acaba por virar celebridade televisiva, em um programa que viaja no tempo e entrevista os grandes filósofos da história. No entanto, Solanka não estava preparado para o que viria a seguir, a manipulação da mídia, que acaba por usurpar o seu controle sobre a sua criatura. À raiva gerada por tal situação soma-se o fato de descobrir em si mesmo um ímpeto homicida, que o faz aproximar-se um dia do leito em que sua esposa e filho dormem com uma faca em punho. O medo da própria fúria o faz partir, sem que ele vislumbre que o germe de tal sentimento o acompanha.
Em Nova York, acaba por envolver-se com uma jovem empresária que lhe propõe criar um universo de sci-fi e, assim, ganhar dinheiro com suas criações.
O capítulo 12 de Fúria reporta-se ao universo criado por Solanka, e alude explicitamente às seis propostas de Calvino: a leveza, a rapidez, a exatidão, a visibilidade, a multiplicidade e a coerência.
Na ficção criada por Solanka, ou seja, na história dentro da história, há uma autoridade criadora, Akasz Kronos, que corresponde no plano literário, a figura do autor. Kronos cria cyborgs, aos quais chama de Reis Bonecos, como uma reação à crise terminal da civilização, usando-os, posteriormente, em benefício próprio. Cada cyborg é único e dotado de personalidade, pois Kronos concede às suas criaturas um certo grau de independência ética.
Para Kronos, há seis altos valores a serem desenvolvidos, que constituem exatamente as seis propostas de Calvino:
Leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, coerência: esses eram os seis altos valores kronosianos, mas em vez de gravar definições únicas desses princípios nos programas default dos cyborgs, ofereceu a suas criações uma série de múltiplas escolhas. Assim, “leveza” podia ser definido como “fazer com leveza o que é na realidade uma tarefa pesada”, isto é, graça; mas também podia ser “tratar com frivolidade o que é sério”, ou mesmo “tornar leve o que é grave”, ou seja a amoralidade. E “rapidez” podia ser “fazer depressa tudo o que for necessário”, em outras palavras, eficiência; porém se a ênfase fosse colocada na segunda parte da frase, resultaria em uma espécie de crueldade. “Exatidão” podia tender para “precisão” ou “tirania”, “visibilidade” podia ser “clareza de ação” ou “busca de atenção”, “multiplicidade” podia ser ao mesmo tempo “abertura de cabeça” e “duplicidade”, e “coerência”, o mais importante dos seis, podia significar tanto “confiabilidade” como “obsessão”... (Fúria,196).
Se essas seis propostas representam no âmbito da ficção dentro da ficção a ambigüidade dos signos, a duplicidade das escolhas; no universo ficcional instaurado pelo romance, elas se mostram como uma tentativa de pôr em prática o desafio da escrita segundo a visão de Calvino.
Na primeira das conferências que compõem o livro, Calvino afirma que a idéia de leveza dificilmente poderá ser representada a partir de exemplos tirados da vida contemporânea. A fim de que as imagens de leveza não se dissolvam como sonhos, há que perceber que no universo infinito da literatura há sempre novos caminhos a serem explorados; caminhos esses que se apóiam na ciência, principalmente na tecnologia da informação.
Ao criar uma personagem que, ao tentar fugir do “peso da vida”, encontra no fantástico um mundo alternativo incessantemente metamórfico, Rushdie se apropria da idéia de “leveza” expressa por Calvino. É Solanka quem anuncia que “Nova York dissolveu-se no pano de fundo”; que “tudo o que lhe acontecia na cidade, cada encontro ao acaso, cada jornal aberto, cada pensamento, cada sentimento, cada sonho, alimentava a sua imaginação como se tivesse sido fabricado para se encaixar na estrutura que ele já havia inventado (p.202)”. Ao assumir que a vida real começara a obedecer aos ditames da ficção, Solanka parece falar pelo autor do romance, mostrando que o insustentável peso da vida pode tornar-se mais leve ao tornar-se matéria metamórfica para a ficção.
Na segunda conferência, Calvino se concentra na “rapidez”, enfatizando alguns aspectos do tempo da narrativa:
Numa época em que outros 'media' triunfam, dotados de uma velocidade espantosa e de um raio de ação extremamente extenso, arriscando reduzir toda comunicação a uma crosta uniforme e homogênea, a função da literatura é a comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando mas antes exaltando a diferença, segundo a vocação própria da linguagem escrita.(p.58)
De acordo com Italo Calvino, o texto rápido é aquele que flui e no qual uma história se encadeia a outra perfeitamente. Trata-se de um texto conciso, sem a necessidade de ser curto. Em Fúria, o texto fluido não deixa a menor dúvida sobre o cumprimento do princípio da “rapidez”.
Para Calvino, a rapidez de estilo e de pensamento significa “agilidade, mobilidade, desenvoltura”; qualidades essas que se combinam com uma escrita propensa às divagações, a saltar de um assunto para outro, a perder o fio do relato para reencontrá-lo ao fim de inumeráveis circunlóquios. Rushdie constrói uma narrativa de grande mobilidade, em que lembranças e ações se entrecruzam, misturando-se à ficção dentro da ficção.
A rapidez, isto é, a agilidade, ao promover a economia do tempo, permite que se possa, em outros momentos, usufruir de digressões necessárias. Ao abordar suas propostas sem excluir seus valores contrários, Calvino aponta para uma permanente dualidade que permeia a mente humana. Se a narrativa cinemática, plena de closes e ação, dá lugar a uma repentina digressão, o que acontece, segundo Calvino, é uma multiplicação do tempo dentro da obra, a concretização de uma fuga.
A fuga torna-se assim elemento discursivo e temático, pois à fuga de Solanka no universo ficcional soma-se a fuga no âmbito do discurso. Se a digressão é realmente, como sugere Calvino, uma fuga da morte do relato, tem-se aí a explicação para a conclusão do romance, decepcionante, segundo alguns críticos. As desventuras de Solanka rumo ao desfecho do romance levam-no, novamente, ao auto-exílio, trancado em um quarto de hotel, ruminando suas perdas; até que decide ver Asmaan, seu filho, que tantas e tantas vezes lhe implorara para voltar para casa. Encontra-o de mãos dadas com o atual padrasto, como um filho apoiando-se em seu pai, e é acometido pela dor da perda. Passara muito tempo fugindo de si mesmo, dos seus medos e da fúria. Agora, decide subir no castelo de pular, saltar na plataforma elástica até que o filho o veja invocando todo o seu amor perdido e arremessando esse amor alto no céu como um pássaro branco (p. 304).
Tal imagem remete para o conceito de “exatidão. Para Italo Calvino, “exatidão” significa uma obra bem definida e calculada, que leva à evocação de imagens nítidas, por meio de uma linguagem precisa, capaz de traduzir as nuanças do pensamento e da imaginação.
Mas como ser exato nas artes, a partir do momento em que o mundo que inspira os artistas é multicultural, multinacional, multiforme, onde circulam milhares de informações simultaneamente? Por meio de um compromisso com a realidade. A cada página do romance é possível reconhecer os fatos do nosso mundo contemporâneo, ainda que vistos sob uma ótica irônica. Não temos dúvida de que é sobre o mundo em que vivemos que o autor escreve: um mundo plural.
O princípio da “multiplicidade”, segundo Calvino, é uma marca do romance contemporâneo, que funciona como enciclopédia, como método de conhecimento, como visão pluralística e multifacetada do mundo. A “multiplicidade” prolifera nas múltiplas visões de um mesmo fato, nos múltiplos discursos imbricados em um mesmo romance, na consciência da simultaneidade e da diferença; fatores esses extremamente presentes no romance de Rushdie. São inúmeros os intertextos detectáveis no romance, as vozes oriundas de outros discursos. Algumas identificáveis por meio de alusões, outras por traços intertextuais de forma e/ ou conteúdo. A própria detecção do texto de Calvino em Fúria é um exemplo dessa multiplicidade.
A recepção do romance de Rushdie suscitou discussões em torno de aspectos que parecem dissonantes no romance, como um certo desequilíbrio entre a primeira parte e as demais. No entanto, um aspecto que parece estar associado à visão de Calvino é o fato de que, neste milênio, as verdades absolutas estão com os dias contados. Não faz mais sentido existir um crítico tentando impor seu gosto ao resto do mundo.
A “visibilidade” evoca a força poética do imaginário, a visão profética tanto do passado quanto dos espaços longínquos, como disse Glissant (1996,67). É essa visão que o autor invoca na trajetória de Solanka, sugerindo que a experiência e a fantasia são compostas pela mesma matéria verbal.
A palestra não-escrita por Calvino, que focalizaria a “coerência” ficará sempre como um enigma sem solução. Sua esposa, Esther, diz apenas que ele deveria fazer referências a Bartleby, the scrivener, de Herman Melville. E diz que Calvino pretendia escrever essa última palestra quando estivesse em Harvard, mas a morte chegou antes.
Resta-nos supor de que modo a coerência poderia associar-se às outras propostas. Deduz-se que todas as outras propostas deveriam estabelecer um todo lógico, estável, dotado de sentido.
Ao final do capítulo 12 de Fúria, há uma série de perguntas que resume as alternativas disponíveis não só para os Reis Bonecos, mas extensíveis a Solanka, enquanto persona do autor no universo ficcional, e ao próprio Rushdie, enquanto escritor e homem :
Kronos havia oferecido aos Reis Bonecos uma opção entre os seus eus originais, mecânicos, e pelo menos algumas das ambigüidades da natureza humana. Qual seria a escolha deles: a sabedoria ou a fúria? A paz ou a fúria? O amor ou a fúria? A fúria do gênio, da criação, ou a do assassino ou tirano, a louca fúria estridente que não deve ser nunca nomeada? (p.200)
Reporto-me, mais uma vez ao texto de Calvino, quando afirma que a representação da cidade exprime a tensão resultante do emaranhado das existências humanas. Nos múltiplos percursos do homem, assim como na rede intertextual do discurso, cada valor se apresenta dúplice. Entre a tentativa de reduzir os acontecimentos a esquemas abstratos e o esforço para fazer com que as palavras possam dar conta, com a maior precisão possível, do aspecto sensível das coisas está a tarefa do escritor do milênio: compreender que cada vida, cada romance é uma enciclopédia, um inventário de dados, uma combinação de experiências que podem ser remexidas e reordenadas na tentativa de dar expressão a natureza comum de todas as coisas.
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| Referência Bilbiográfica |
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CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio.Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
CARREIRA, Shirley de Souza Gomes. “Fúria: a saga do homem traduzido”. In: MONTEIRO, Maria Conceição & LIMA, Tereza Marques de Oliveira ed. Dialogando com culturas: questões de memória e identidade. Rio de Janeiro: Vício de Leitura, 2003.
GLISSANT, Édouard. Introduction à une poétique du divers. Paris: Gallimard, 1996.
RUSHDIE, Salman. Fúria.[2001].Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
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