V O L U M E   I I I        N Ú M E R O   X I          Outubro  -  Dezembro     2004
 
 
A R T I G O  V  I
 
 Vestígios da transculturação em Shame, de Salman Rushdie
Profa. Dra . Shirley de Souza Gomes Carreira*

mitchell@centroin.com.br

http://www.shirleycarreira.homestead.com/index.html

UNIGRANRIO
Na segunda metade do século XX, correntes do pensamento como o Desconstrucionismo, os Estudos Culturais e a chamada Teoria Pós-colonial contribuíram não só para a revisão de determinados conceitos, como, por exemplo, a constituição da nação e o sentido de “pertencimento”, como também para a evidência de que as localizações culturais geográficas tradicionais já não se sustentam, dando lugar a uma interpretação da cultura que está sedimentada na diversidade e no hibridismo.

A assim chamada literatura pós-colonial tem revelado exemplos característicos da transculturação, cujo resultado é um indivíduo híbrido, ou “traduzido”, segundo Salman Rushdie. Um exame detalhado da obra de Rushdie revela a tensão gerada por uma identidade que está fundamentada em duas culturas diferentes, e que se manifesta sob uma forma de negociação com a nova cultura, ao mesmo tempo em que se dá um desenraizamento parcial em relação à cultura de origem. Esse novo olhar sobre a diversidade corresponde ao conceito derridiano de différance, ou seja, à substituição de binarismos por localizações posicionais e relacionais, que subvertem os modelos culturais tradicionais orientados para a nação.

Este trabalho propõe detectar em Shame (1983), de Salman Rushdie, os traços dessa identidade híbrida, ou seja, o modo pelo qual a experiência da migração é incorporada ao romance, tornando-se elemento essencial à releitura que o autor promove do diálogo entre Ocidente e Oriente.

A identidade e a diferença são criaturas da linguagem; são o resultado de um processo de produção simbólica e discursiva, que definem relações sociais sujeitas a vetores de força. A dinâmica do colonialismo instituiu relações assimétricas de poder que dividiram o mundo entre “centro” e “periferia”, criando uma fronteira de exclusão. A identidade hegemônica alimentava-se da imagem do Outro, para o qual se apresentava como modelo. A atitude etnocêntrica definia o colonizado de dois modos distintos: projetando nele os seus valores, tornando-os idênticos a si mesmos, ou considerando-os como inferiores, justificando a sua subordinação por meio da diferença. Assim, as relações estabelecidas na sociedade colonial se ajustavam a determinadas regras que funcionavam como um indicativo da aceitação do colonizado, como, por exemplo, o uso do idioma do colonizador.

Após a Segunda Guerra Mundial, as colônias começaram a conquistar a sua independência e a Europa, devastada pelo confronto bélico e carente de mão-de-obra para a sua reconstrução, passou a ser o destino de vários emigrantes em busca de trabalho, dentre eles indivíduos oriundos das ex-colônias.

Em uma tentativa de compreender o processo de aculturação dos imigrantes; vários modelos de análise foram criados, modelos esses que se estruturaram em torno de duas vertentes principais: a primeira, ou modelo unidirecional, pressupõe que o indivíduo da cultura minoritária deva abrir mão dos seus valores e hábitos culturais e adotar atitudes e comportamentos característicos da sociedade dominante; a segunda, ou modelo bidimensional, analisa a integração desse indivíduo com o novo grupo étnico e aponta para quatro orientações possíveis: integrativa, quando o ele mantém os valores étnicos originais, e boas relações com o grupo majoritário; de separação, quando o individuo opta por manter seus valores étnicos, sem procurar estabelecer relações favoráveis com a comunidade dominante; de assimilação, que implica o abandono da própria identidade cultural em favor da comunidade dominante; e de marginalização quando há a perda total da identidade cultural e a ausência de integração com a comunidade.

Nenhum desses modelos dá conta de um diálogo intercultural que compreende a influência mútua entre dominantes e dominados. A perspectiva mais concreta e próxima da realidade das sociedades multiculturais é proposta pelo antropólogo cubano Fernando Ortiz[1], que criou o termo “transculturação” para definir um modo de aculturação em que ambos os segmentos se modificam, gerando novas configurações identitárias.

Ao afirmar que indivíduos como ele, que pertencem a dois mundos ao mesmo tempo, são homens traduzidos, Rushdie aproxima-se da visão de Ortiz, pois, para ele, viver a experiência da migração significa ver-se obrigado a negociar com as novas culturas, sem ser totalmente assimilado por elas e sem perder completamente a própria identidade. Assim, conforme afirma Stuart Hall, a co-presença espacial e temporal de sujeitos anteriormente isolados geográfica e historicamente e o conseqüente intercâmbio cultural levam ao processo no qual os grupos subordinados selecionam e recriam o que lhes é transmitido pela cultura metropolitana dominante [2]. O hibridismo é, portanto, resultante de um contínuo processo de transculturação e a identidade híbrida não é mais nenhuma das identidades originais, embora guarde traços delas.

Desde o seu primeiro romance, Grimus (1975), Rushdie explora essa temática em seus textos, muito embora ela só tenha passado a ser objeto da crítica a partir de Midnight’s children (1981), romance com o qual ele obteve o Booker Prize (1981). Em todos os seus romances é possível detectar os vestígios da transculturação, e, em cada um deles, a identidade híbrida surge como um elemento questionador das relações entre Oriente e Ocidente, focalizando aspectos específicos dessas relações.

Ao contrário do que faz em Grimus, romance em que a identidade híbrida se manifesta não só no nível diegético, mas também por meio de um intenso diálogo intertextual entre obras do cânone Ocidental e da literatura Oriental, em Shame, a exemplo do que já fizera em Midnight’s children, Rushdie cria personagens que se vêem, e são vistos, como indivíduos periféricos, cuja trajetória está, de algum modo, relacionada à história da nação.

Devido ao diálogo com a história, tem havido uma tendência, por parte da crítica, de interpretar Midnight’s children como uma alegoria da história da Índia pré e pós-colonial, bem como a associar Shame à história do Paquistão. No entanto, como o próprio autor afirma, não há como falar do Paquistão sem falar da Índia, ou mesmo da Inglaterra, pois a história do subcontinente indiano é uma só. Ao abordar a identidade híbrida nesses dois romances, Rushdie não só promove uma releitura da história oficial, como também reinterpreta as relações entre os três países sob uma ótica que busca se distanciar da antinomia eu/outro enquanto se aproxima do conceito de différance proposto por Derrida, isto é, do reconhecimento da diversidade e do hibridismo cultural.

Em Imaginary Homelands, Salman Rushdie (1991, p. 277-8) afirma que “um migrante, na acepção completa da palavra, sofre, tradicionalmente, uma tripla ruptura: ele perde o seu “lugar”, adota uma língua estrangeira, e se vê cercado de pessoas cujo comportamento e códigos sociais são muito diversos dos seus, e, às vezes, até mesmo ofensivos”.[3] As raízes, o idioma e as normas sociais constituem três importantes aspectos da definição da identidade cultural. Ao negá-los, o migrante vê-se obrigado a encontrar novos modos para descrever-se e definir-se enquanto indivíduo.

No caso específico de Rushdie, o idioma é um capítulo à parte, uma vez que nas escolas indianas o inglês, o idioma do colonizador, era a língua oficial, muito embora o urdu fosse a língua falada em casa. Como bem lembra Kwame Anthony Appiah em Na casa de meu pai[4], a adoção da língua colonial, longe de ser vista como sujeição aos valores ocidentais, deve ser interpretada não só como um modo de transcender as divisões étnicas, mas também como uma tentativa de enunciar-se em pé de igualdade com o ex-colonizador.

Em Shame, a questão da identidade recebe um duplo tratamento. Ela é objetivamente representada na trajetória de algumas personagens do romance, e teoricamente discutida por um narrador intruso, o qual Rushdie afirma ser ele mesmo, enquanto autor[5], que comenta os eventos ficcionais relacionando-os aos fatos históricos que são abordados no romance. Na realidade, o autor contrapõe a sua experiência transcultural às histórias pessoais das personagens, a fim de demonstrar que o processo de aculturação pode gerar configurações identitárias negativas, que vão desde uma atitude reacionária à completa assimilação.

Shame é um romance que trata do efeito pernicioso da tradição sobre os indivíduos, ao perpetuar uma “mentalidade de gueto”, ou seja, uma visão sectária e excludente, freqüentemente sedimentada em relações assimétricas de poder. No romance, Rushdie reconta a história do Paquistão desde sua independência da Índia, em 1947. A história cobre três gerações e focaliza as vidas e as famílias de dois homens: Raza Hyder, um famoso general, e Iskander Harappa, um ex-milionário playboy que se torna político. Essas personagens são baseadas em duas personalidades históricas do Paquistão: o ex-presidente Zia-ul-Haq e o ex-primeiro ministro Zulfikar Ali Bhutto. Na vida real, Bhutto foi deposto por Zia em um golpe militar e executado dois anos depois, após um julgamento de teor duvidoso.

Em suma, o romance encena uma relação de poder análoga ao binarismo colonizador/colonizado, na qual os “colonizadores” são políticos corruptos e os “colonizados” são as massas. Ao fazê-lo, Rushdie traz à baila o discurso populista da manutenção da tradição, do fundamentalismo, revelando que em suas bases opera o mesmo sistema assimétrico de poder que norteou as sociedades coloniais.

Os mecanismos de opressão e repressão são revelados por Rushdie nas múltiplas configurações de identidade que o romance constrói. Para fins desta análise, serão focalizadas algumas personagens cuja trajetória propiciará uma re-leitura da identidade cultural.

As irmãs Shakil surgem no primeiro capítulo como um exemplo da repressão nas sociedades muçulmanas. Tendo sido criadas em reclusão, após a morte do pai, elas fazem uma primeira incursão no mundo exterior, organizando uma festa na qual a maioria dos convidados é de origem inglesa. Dessa experiência resulta a gravidez de uma das irmãs, que nunca é identificada, e um filho, Omar Khayyam Shakil, que é criado igualmente pelas três como se cada uma delas o tivesse gerado. O dado curioso sobre esse triunvirato materno é o intercâmbio de personalidades, que é descrito por Rushdie como uma monstruosidade híbrida, ou seja, um hibridismo que deu errado, pois ao invés de gerar um novo comportamento e novas personalidades, ele faz com que as irmãs mergulhem no próprio passado.

Em sua análise do romance, Sabrina Hassumani interpreta esse dado como sendo uma forma de “migração negativa”, uma transposição de limites que não remete ao futuro, mas ao passado. Para ela, Shame explora os extremos da consciência histórica, segundo a visão de Nietzsche em O uso e o abuso da história[6]. Permito-me ampliar essa leitura e afirmar que o romance aborda uma questão crucial nas sociedades muçulmanas, que é a resistência ao intercâmbio cultural. Ao se fecharem na casa que lhes serviu de prisão por toda a vida, as irmãs Shakil rejeitam o futuro, apegando-se às tradições de um modo que reflete a reação dos estados muçulmanos à possibilidade de intercâmbio cultural para além das fronteiras do mundo islâmico. Ainda que diversos em sua formação étnica e cultural, esses estados-nação se unem sob a bandeira de um fundamentalismo religioso, devido à crença de que a mistura entre diferentes culturais enfraquecerá e destruirá a sua própria cultura. Stuart Hall (1998,92) afirma que essa tentativa de restaurar a coesão é uma atitude de fechamento frente à diversidade.

Omar Khayyam Shakil, por sua vez, é construído como uma personagem consciente de sua posição periférica, que é simbolicamente representada no romance pelo fato de que suas três mães o privam dos rituais religiosos subseqüentes ao nascimento, isto é, da circuncisão, do ato de ter o nome de Deus sussurrado ao seu ouvido e, finalmente, de ter a cabeça raspada. Essa ausência de rituais é significativa, pois Omar sofre uma dupla negação das suas origens. Suas três mães não apenas lhe negam o direito de saber quem foram seus pais biológicos, mas também o privam de suas raízes, o que pode parecer um paradoxo, considerando-se que elas se recolhem à imutabilidade do passado por livre e espontânea vontade. No entanto, é possível entender essas reações aparentemente antagônicas, se considerarmos que a opção pela clausura é uma atitude defensiva de quem se vê despreparado para enfrentar o mundo exterior. Paralelamente, elas constroem, em sua reclusão, um mundo no qual são elas a ditar as regras, passando de oprimidas a opressoras. Quando, por fim, se vêem obrigadas a permitir que Omar vá à escola e tenha contato com o mundo que, por tanto tempo, decidiram ignorar, elas o proíbem de sentir vergonha, de sentir-se humilhado, projetando nele a coragem que lhes faltara.

A inadequação de Omar se faz anunciar pela vertigem, pela sensação de estar sempre no limite de algo. Ele é o produto da miscigenação, não apenas biológica, mas principalmente cultural. É na biblioteca do seu avô que ele tem acesso à herança cultural tanto do Oriente quanto do Ocidente, assim como é essa dupla consciência cultural que torna impossível a sua permanência na mansão onde foi criado. Sua fuga é uma tentativa de escapar do domínio materno, da sensação de estar à margem da própria vida.

É significativo o fato de que Rushdie constrói a personagem como o locus de confluência entre dois mundos. Omar é o símbolo da desconstrução tanto do olhar hegemônico quanto da noção de subalternidade. O seu próprio nome indica essa desconstrução. Há uma correlação entre a personagem e o poeta persa Omar Khayyam, para a qual o narrador/autor chama a atenção, afirmando que o poeta nunca foi popular em sua terra natal e que ele existe no Ocidente em virtude de uma tradução que, na realidade, pode ser interpretada como uma reelaboração dos seus versos, muitas vezes bastante diferente do original. A sua existência como poeta é, portanto, periférica, assim como a existência da personagem homônima na diegese. Segundo o narrador: “é o destino de Omar Khayyam Shakil afetar, de sua posição periférica, os grandes eventos cujas figuras centrais são outras pessoas” (p.108).

Ao contrário de suas mães, que optam pela reclusão em seu próprio mundo, Omar não compreende a amplitude de sua dupla herança cultural e carrega vida afora um sentimento de inadequação que o leva a pensar em si mesmo como um homem que não foi nem mesmo o herói de sua própria vida.

A outra personagem de importância no romance é Bilquìs Hyder, cuja história pessoal reflete os mecanismos inerentes aos movimentos migratórios. Ela é apresentada ao leitor como uma jovem sonhadora, cujo pai é dono de um cinema. Graças à exposição diária a essa fábrica de ilusões, Bilquìs vive no limite entre o fato e a ficção, imaginando-se rainha de um reino imaginário. Devido a um erro de estratégia cometido por seu pai, ela se vê pobre da noite para o dia. Alheio às divisões políticas do país, que atingiam até mesmo o entretenimento, seu pai programara filmes que atendiam a ambas as facções, achando que seria possível superá-las. A conseqüência vem sob a forma de uma bomba que faz com que o cinema vá pelos ares, juntamente com seu pai. Bilquìs, apesar de escapar ao atentado, é relegada a um estado de nudez física que é o símbolo da destruição da sua história. Coberta apenas pela dupatta da modéstia, ela é arrastada pela multidão e levada a Red Fort, o local onde, dias antes da divisão do território indiano, os mulçumanos de Delhi foram recolhidos, e lá, ao acordar, descobre ter sido piedosamente coberta com o casaco de um oficial, Raza Hyder, que por ela se encanta a ponto de propor-lhe casamento. Ao ser incorporada à família de Raza, e ao recém-criado país, que é a versão ficcional do Paquistão, Bilquìs deixa para trás a Índia, o seu “lugar antropológico”, e, conseqüentemente, a sua própria história. Sobre ela, diz o narrador:


Todos os migrantes deixam para trás o seu passado, embora alguns tentem empacotá-los em trouxas e caixas—mas, durante a jornada, algo escapa dos momentos entesourados e das velhas fotografias, até mesmo seus donos deixam de reconhecê-los porque faz parte do destino do migrante ser despojado da história, permanecer nu em meio ao escárnio dos estrangeiros sobre os quais vê ricas roupagens, os brocados da continuidade e as sobrancelhas do pertencimento—de qualquer modo, o que interessa é que o passado de Bilquìs a abandonou antes mesmo que ela deixasse aquela cidade [...] Anos mais tarde, ele [o passado] a visitaria algumas vezes, assim como um parente esquecido aparece. Mas por um longo tempo ela suspeitou da história; ela era a esposa de um herói com grande futuro, assim, naturalmente, ela empurrou o passado, como quem rejeita aqueles primos pobres quando eles vêm pedir dinheiro emprestado. (p.60)


A expectativa de Bilquìs de viver um conto de fadas se transforma em uma obsessão pela idéia de permanência, de pertencimento, a tal ponto que se reflete até mesmo na imobilidade dos utensílios domésticos, para os quais ela estabelece lugares fixos. Para adequar-se à sua nova situação, para ser aceita pela família do marido, ela tem de abrir mão de seu passado, de suas raízes. No romance, o processo de aculturação é ficcionalizado por meio do código estabelecido pela família de Raza Hyder para a aceitação dos novos membros, que pode ser resumido em uma frase que o marido diz a Bilquìs: “Recontar histórias é para nós um ritual de sangue”. Para ser aceita, ela deveria ser capaz de recontar a saga da família Hyder até que aquela história passasse a ser a sua. Essa visão ilustra o conceito de “comunidade imaginada” desenvolvido por Benedict Anderson, pois o recontar histórias passa a ser o laço imaginário que une os membros daquela comunidade/família.

As personagens citadas, as irmãs Shakil, seu filho Omar e Bilquìs são inscrições simbólicas da exposição de um indivíduo a uma nova cultura, e representam, respectivamente, três modos de relacionamento: a separação, a marginalização e a assimilação. No plano ficcional, a trajetória dessas personagens faz parte de uma crítica ampla do autor à história política do Paquistão, na medida em que mostra o modo pelo qual as sociedades pós-coloniais reproduzem o modelo eurocêntrico ao qual foram expostas. No plano discursivo, elas são o ponto de partida para a discussão de um dos temas mais caros para Rushdie: a transculturação. É o próprio narrador quem enuncia:


“Eu digo a mim mesmo que este é um romance de adeus, minhas últimas palavras sobre o oriente do qual, há muitos anos, comecei a me desligar. Eu nem sempre acredito em mim mesmo quando digo isso. Ele é parte de um mundo ao qual, quer queira ou não, ainda estou ligado, embora por faixas elásticas”.

E vai mais além, ao afirmar: “Eu, também, sou um homem traduzido [...] Acredita-se que algo se perde para sempre na tradução: eu me agarro à idéia de que se ganha algo”. (p.23)

Sua visão sobre a saga do migrante é ainda esclarecida pela seguinte passagem:

Sou um emigrante de um país (Índia) e recém-chegado em outros dois (Inglaterra, onde vivo, e o Paquistão, para onde minha família mudou-se contra a minha vontade). E tenho uma teoria de que os ressentimentos que os nós mohajirs engendramos tem algo a ver com a conquista da força da gravidade. Nós realizamos o ato com o qual os homens da antiguidade sonhavam, aquele que os fazia invejar os pássaros; isto é, fomos capazes de voar. (p.84)


Para Rushdie, voar é mais que sair da terra natal; é desfazer-se dos mitos conservadores que nos fixam a um lugar; é ver a experiência da transculturação como uma abertura para o novo. “Quando os indivíduos partem de sua terra natal, diz ele, são chamados de migrantes. Quando as nações fazem o mesmo (o caso de Bangladesh), o ato é chamado de secessão”. O que há de melhor em ambos, povos migrantes e novas nações, é a esperança. O que há de pior é o vazio na bagagem, aquelas malas invisíveis que carregamos conosco, pois quando voamos nos distanciamos da história, da memória e do tempo. (p.85)

Em Shame, Rushdie deixa claro que a experiência da migração, e conseqüentemente da transculturação, é o que o habilita a reescrever a história, formando um palimpsesto do passado. E ele o faz de maneira clara e crítica, não com o olhar do ocidente, conforme dizem alguns críticos, nem com o ardor nacionalista do oriente, conforme gostariam outros, mas com o olhar cosmopolita, a visão de quem aprendeu a tirar partido da diversidade.



 

 
Referência Bilbiográfica
 

APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai. A África na filosofia cultural. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997[ 1992].

BHABHA, Homi K. The Third Space. Interview with Jonathan Rutherford. Identity: Community, Culture, Difference. Ed. Jonathan Rutherford. London: Lawrence & Wishart, 1990. 207-21.

GOONETILLEKE, D. C. R. A . Salman Rushdie. London, New York: Macmillan, 1988.

HASSUMANI, Sabrina. Salman Rushdie: A Post-Modenr Reading Of His Major Works. USA: Fairleigh Dickinson University Press, 2002.

HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

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_ _ _ _ _ _.Imaginary Homelands. Essays and criticism 1981-1991.Londres: Granta Books, 1991.


Referências bibliográficas: Publicações acessadas pela Internet

CHAUDHURI, Una. Excerpts from a Conversation with Salman Rushdie. In: Imaginative Maps. Volume II, No. 1.New York: Turnstyle Press, 1990. Disponível em : http://www.subir.com/rushdie/uc_maps.html

NIETZSCHE, F. The use and abuse of history. Disponível em : http://www.jwp4.netfirms.com/books/Friedrich%20Nietzsche%20-%20The%20Use%20and%20Abuse%20of%20History.html

SHARPE, Jenny. The limits of what is possible: reimagining sharam in Salman Rushdie’s Shame. Disponível em http:// social.chass.ncsu.edu/jouvert/vlil/sharpe.htm

RAJA, Masood. Salman Rushdie: a Study in Postcolonial Representation. Disponível em: http://masodraja.com/thesis.html


* Sobre a autora

Shirley de Souza Gomes Carreira é Doutora em Literatura Comparada pela UFRJ. É Professora Adjunta de Literaturas de Língua Inglesa e Literatura Comparada nos cursos de graduação e pós-graduação da UNIGRANRIO, onde também atua como coordenadora do Curso de Letras e do Curso de Especialização em Língua Inglesa. Tem artigos publicados no Brasil, EUA, México, Inglaterra e Portugal. É a editora da Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades da UNIGRANRIO. Atualmente conduz uma pesquisa de pós-doutorado na UERJ sobre a obra de Salman Rushdie, focalizando o processo de transculturação na literatura produzida pelo escritor migrante.

   
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